Sinto o começo, ele se aproxima de mim como uma pedra atirada, vem em busca dos meus olhos agora, vai me tirar tudo aos poucos, eu penso, a cada amanhecer um pouco de mim. Eu posso perceber, tem frescor tudo o que se aproxima, tenta me conquistar. São as mesmas flores se abrindo. E eu já começo a esquecer de como elas ficaram no outro outono. E nada mais parece existir a minha volta se não esse cheiro de botão. E quando eu pensar em me atirar daquela janela pra qual eu tanto olho eu lhe darei outra chance.
Sexta-feira
Terça-feira
. . (entre)
Nada faz tanto sentido! E é só isso que importa. O sentido que nada pode fazer. Assim como a solidão desses dias. Assim como eu lutando contra o tempo sobre mim mesma. Caindo como uma chuva de plumas. Plumas em tempestade, o peso de uma tonelada de plumas. Eu sinto que o tempo de um segundo infinito é todo o meu tempo. Ele retorna a cada novo instante. Eu sou obrigada a revê-lo. A carregá-lo em meu corpo. Eu vivo tentando mudar. Retirar da matéria aquilo que a revela. Quero ser uma bunda de plástico. Quero ser uma lente azul. Você é o que você come. Você é o que você veste. Você é o que você diz. Você é o que os olhos dos outros veêm e eles veêm o que você come, o que você veste, o que você diz. Ninguém se importa mais quando os olhos estão fechados e você é apenas o vazio escuro de si mesma nos olhos de ninguém.
Quarta-feira
.eu hoje acordei pela metade, espere até amanhã.
Não sei o que dizer. É simples com um cacto esse seu raciocínio. "Encontro-me em situação de extremo desespero. Estou esperando a nave mãe para ser abdicado daqui." Alguns prefeririam morrer. E é fácil refugirar-se na morte, ela não causa expectativas, ela não causa ansiedade, ela pode qualquer coisa, qualquer desejo, ilusão, vício, qualquer perna torneada. A companhia que nunca faltará. Pensei me matar algumas vezes, mas o fato de não poder repetí-las depois, de maneira melhor ou mais espetacular, de maneira mais fácil ou menos dolorosa, me desencoraja. O fato de ficar sozinha, sem algo que possa ser um fim, uma saída certeira, também me deixa aqui, calada. Tentativa é algo que não existe neste universo de inteiros. Só se morre uma vez por vida e como eu não sei ... eu continuo me escondendo. Pensei: Ele vai dizer que não, que não, que não... Você acreita? Escondi o bilhete em um lugar estranho, um bilhete desses tolos, penso em um dia revelá-lo, ele ficou naquela casa como um pensamento meu, se eu não puder estar lá, o bilhete está. E você? Eu estou aqui esperando que esse bilhete possa falar mais do que ele diz, que possa dizer todas as coisas necessárias. No melhor momento. O momento único, então? Sim, o momento da morte. Ele nasce e morre, é isso? Quando se revela? O bilhete morre quando se revela? Não o bilhete é a morte, a morte de outra possibilidade de eu existir sem estar, é a companhia eterna, a possibilidade latente de eu me fazer presente no momento mais exato no qual TUDO, tudo poderia se perder e eu saco o bilhete, revelo por telefone, mensagem, quem sabe e salvo todas as coisas. Pronto, nada no chão, mas isso nunca mais poderá acontecer. E você vai ter coragem? De morrer assim? Só por um momento supremo, a última areia se esgotando entre os dedos... E dá pra sentir? O que? Um grão? O último é o mais infinito, ele demora o tempo de uma dor incomensurável, o tempo incomensurável de uma dor infinda e potente, mas infelizmente será muito complicado lembrar do bilhete enquanto isso acontece. É no depois, porém, quando o último grão é apenas lembrança entre os dedos que eu pensarei que pode haver algo pior e não contarei nada a ninguém. Nada? Não, o bilhete ficará, permanecerá em sua potência. Eu só o revelaria, na verdade, quando eu não fizesse mais questão, nem tivesse mais medo de tanta dor. Depois de sentí-la, depois do pior erro os outros menores, os que não se comparam? Todo o erro é imenso quando se pode perder o que se ama, enquanto se pensa que há possibilidade do pior, enquanto se quer, tudo é vazio e aterrorizante, tudo é frágil, toda a possibilidade já é muita dor. É quando o amor acaba que a gente se entrega, que a gente se permite morrer, por que já não faz mais sentido, e o espetáculo já se desfez, já consumiu sua potência, nada mais pode, nada mais é crível, nem a morte, por que se descobre poder morrer de outras maneiras. Mas e o corpo? Morrer o corpo?
Segunda-feira
"Eu já disse que eu te amo?"
Eu gostaria de não estar aqui. Pelo prazer de não ser eu. E se eu pudesse ser outra apenas por estar em outro corpo eu quebraria um dedo, cortaria um ceio, arrancaria os olhos, me escaupelava. E se eu pudesse ter toda essa força, por que eu acredito que sem uma perna, ou com qualquer dor profunda ou perda irrecuperável um outro mundo se faça, eu me devorava. E se tudo fosse tudo muito rápido e eu precisasse "mais", se eu pudesse ter força, se eu tivesse coragem eu me consumia inteira pra vomitar uma outra que não essa. Hoje eu penso "que você está me tirando aos poucos da sua vida.", mas isso não faz o menor sentido. Eu fico olhando esse corpo no espelho, esse que apodrece comigo, eu quero sentir diferente. Eu fico olhando pro espelho e nada está realmente ali, tudo falta, tudo é incerto, é um amanhã que será melhor e nunca vem, nunca vem. "Eu juro que quero ficar com você, mas você não entende." e nada disso importa realmente quando somos apenas duas maças. Eu poderia por novos ceios, peder uns quilos, aprender a cantar e quem sabe eu estaria feliz. Mas a verdade é que nada é tão complexo assim que se possa atingir. Ontem eu ouvi eu te amo, hoje eu ouvi eu te amo, amanhã eu ouvi eu te amo, todos os dias eu ouvi eu te amo, sempre eu ouvi eu te amo, hoje eu ouvi eu te amo e nada disso, nada disso, nada disso mudou a minha vida. Por que eu continuo aqui. E aqui não é um lugar, "você entende que aqui não é um lugar?" "Você já se esqueceu o que eu comecei dizendo..." Aqui não é um lugar e não convém explicar!
- Mas se você me fisesse uma surpresa. . . (Talvez uns balões, um bolo, uns docinhos e coxinha, mas coxinha de frango.) Não que eu esteja fazendo anos, mas é que eu estou me sentindo muito sozinha. "Eu posso te ligar?"
Tudo está apodrecendo, o amor está apodrecendo, meu nariz, meu clareamento dental, meu cabelo super hidratado e brilhante, minha pele viçosa, o doce de leite, a alface, as maças estão apodrecendo e eu acho que é hora da gente saber o que quer. Mas é incrível, como, hoje, eu notei, que tudo está apodrecendo, e eu senti uma alegria, "você está se afastando de mim, eu vou te ligar, eu vou te perguntar isso, você vai me achar imbecil e eu sei que sou" e nada disso tem valor quando tudo está em estado de putrefação a nossa volta e o que seria mais importante agora não está acontecendo.
Sexta-feira
.estado.
Estou onde não há silêncio.
Portas, pratos, altofalantes, carências, incompreenções, risadas, conversas e um medo de certa coisa desconhecida.
Um borrão em uma parede sem cômodo de uma sujeira sem tinta.
Sou feliz e triste.
Sinto-me parte.
Fria, quando tudo é frio ou quente; quente, quando tudo é quente ou frio.
Peça que encaixa em diversos lugares e peça sem jogo.
As vezes nem peça, nem parte, nem jogo.
Amo tudo aqui.
Amo como uma planta a seu vaso, agora encoberto por um cachepô, vaso podre de tantos anos, descolorido, frágil, mas parte inerente a existência.
Não posso mover-me.
O corpo em risco; a faca, a cadeira, o telefone, os móveis todos, todos eles ameaçados.
Dançam em minha direção, desejam explodir em meu corpo a energia acumulada daquelas mãos.
O desejo imcompleto. . .
Eles vem e vão em minha mente e eu posso enxergar-me deformada ou mesmo morta ou mesmo um pedaço de osso e carne e sangue e tripas esfarinhadas vertendo. . .
Há medo de não reconhecer-me amanhã em algum espelho.
Há medo de não haver silêncio.
Sou jovem, há em meus olhos o brilho de todas as escolhas possíveis.
Quero consumi-las como o tempo aos meus planos.
Não posso morrer dessa cólera, não dessa que não me pertence.
Morreria gozando meu próprio ato de violência contra qualquer coisa.
Morreria gozando, mas tenho horror, um pavor de infância acumulado contra qualquer coisa que tente me ferir.
Não posso mover-me e sou tão ou mais forte. . .
Mas há nos músculos qualquer memória ou dor que agora volta e me impede de concluir o que seria lógico.
Prendo-me em um quarto.
As vozes aceleram-se e eu posso sentir o coração de meu pai estilhaçar-se.
(Ele não morre agora, por que ainda haverá dor.)
Dor jorrando das gavetas, sorvendo das janelas, dos vasos de flores, das fotos antigas, dor comendo as paredes e corroendo as unhas, os cabelos, o viço.
Viverá para saber que não terá nada do que quer.
Viverá para saber que tudo se repetirá incansavelmente a sua volta sem se concluir.
E viverá ainda pra não entender, por que há dor.
A dor nos móveis não concluída.
Eu me afasto sem culpa.
Falso e pequeno, mas leve, o lugar que eu criei.
Tenho limites menores.
Queria dar-lhe um abraço, uma despedida comum, talvez. . .
O pai sangrando, olhando nos meus olhos como um menino chutado, e eu pensando em mim.
Ele não terá grandes reuniões de família, nem netos, nem muito amor.
Sempre de longe, que a distância permite certas felicidades e algum conforto.
Nada resta.
Tudo se dissolve e se ilumina em outro canto, não é preciso rigor. . .
Que os laços de sangue são eternos, estaremos sempre por aqui.
Portas, pratos, altofalantes, carências, incompreenções, risadas, conversas e um medo de certa coisa desconhecida.
Um borrão em uma parede sem cômodo de uma sujeira sem tinta.
Sou feliz e triste.
Sinto-me parte.
Fria, quando tudo é frio ou quente; quente, quando tudo é quente ou frio.
Peça que encaixa em diversos lugares e peça sem jogo.
As vezes nem peça, nem parte, nem jogo.
Amo tudo aqui.
Amo como uma planta a seu vaso, agora encoberto por um cachepô, vaso podre de tantos anos, descolorido, frágil, mas parte inerente a existência.
Não posso mover-me.
O corpo em risco; a faca, a cadeira, o telefone, os móveis todos, todos eles ameaçados.
Dançam em minha direção, desejam explodir em meu corpo a energia acumulada daquelas mãos.
O desejo imcompleto. . .
Eles vem e vão em minha mente e eu posso enxergar-me deformada ou mesmo morta ou mesmo um pedaço de osso e carne e sangue e tripas esfarinhadas vertendo. . .
Há medo de não reconhecer-me amanhã em algum espelho.
Há medo de não haver silêncio.
Sou jovem, há em meus olhos o brilho de todas as escolhas possíveis.
Quero consumi-las como o tempo aos meus planos.
Não posso morrer dessa cólera, não dessa que não me pertence.
Morreria gozando meu próprio ato de violência contra qualquer coisa.
Morreria gozando, mas tenho horror, um pavor de infância acumulado contra qualquer coisa que tente me ferir.
Não posso mover-me e sou tão ou mais forte. . .
Mas há nos músculos qualquer memória ou dor que agora volta e me impede de concluir o que seria lógico.
Prendo-me em um quarto.
As vozes aceleram-se e eu posso sentir o coração de meu pai estilhaçar-se.
(Ele não morre agora, por que ainda haverá dor.)
Dor jorrando das gavetas, sorvendo das janelas, dos vasos de flores, das fotos antigas, dor comendo as paredes e corroendo as unhas, os cabelos, o viço.
Viverá para saber que não terá nada do que quer.
Viverá para saber que tudo se repetirá incansavelmente a sua volta sem se concluir.
E viverá ainda pra não entender, por que há dor.
A dor nos móveis não concluída.
Eu me afasto sem culpa.
Falso e pequeno, mas leve, o lugar que eu criei.
Tenho limites menores.
Queria dar-lhe um abraço, uma despedida comum, talvez. . .
O pai sangrando, olhando nos meus olhos como um menino chutado, e eu pensando em mim.
Ele não terá grandes reuniões de família, nem netos, nem muito amor.
Sempre de longe, que a distância permite certas felicidades e algum conforto.
Nada resta.
Tudo se dissolve e se ilumina em outro canto, não é preciso rigor. . .
Que os laços de sangue são eternos, estaremos sempre por aqui.
.cena MCIII.
Ela se vira sorrindo deliciosamente, ascena com o olho direito levantando levemente a cabeça, e diz:
- Ei, você! (aponta para o cara alto e magro).
Cai o pano.
Atrás das cortinas, já de langerie pêssego, o olho direito permanece.
- Ei, você! (aponta para o cara alto e magro).
Cai o pano.
Atrás das cortinas, já de langerie pêssego, o olho direito permanece.
Quarta-feira
.ela é bonita?.
Não que você deva me amar ou coisa assim. Não que você deva tentar. Eu também não posso ignorar que por aí andam tantas pernas... E que isso, de não saber, é um vazio incomensurável no qual eu posso pisar com qualquer pé ou sapato, mas existem tantos outros que eu não alcanço e seria tolo tentar o infinito. Eu me sento em seu sofá, com a cara lambusada de chocolate - eu ainda não notei que me sujei, mas você sabe, você sempre sabe - e eu estou aqui olhando as suas coisas, olhando as suas coisas, olhando por aí pra ver se eu estou em alguma delas; eu fico feliz, eu estou em alguma delas: estou no seu sofá. É tão absurdo isso de te imaginar conhecendo outras de mim. Uma que você viu na padaria, uma que você viu na rua, aquela que você vê no mercado, outra em qualquer lugar, são tantas... Eu estou em toda a parte, no corpo de todas as mulheres e elas também estão em mim. Elas me invadem pelos poros, eu posso respirá-las, eu posso sorve-las, eu posso ser qualquer uma delas. Veja: eu posso ser qualquer uma delas. Mas o meu corpo é este. O meu corpo é este. O meu corpo é este que você escolheu. Os outros não têm o meu sorriso, nem o meu caminhar, nem o meu jeito, tempero, choro, choro, choro, choro por você a horas sentada no seu sofá com a cara lambusada de chocolate ou qualquer coisa. Não que você deva me amar ou coisa assim. Não que você deva tentar. Mas veja, aquela não sou eu, aquela não sou eu, aquela tem qualquer coisa de diferente que nos separa em um abismo dispar de uma incompletitude exacerbada e inconstante que eu já nem sei notar. Mas veja: ela calça os mesmos sapatos, mas veste uns anos a mais, ela tem ceios fartos, mas não tira o sutiã, ela é feliz por estar com você, mas tem qualquer coisa nela de errado, de falso, de... ela é feliz por estar com você, mas não é a minha felicidade, aquela de qualquer manhã. Talvez ela não tenha mais ninguém, nem um gato, nem um medo, nem um homem, talvez ela tenha uma saudade exagerada e faminta de alguém de tanto tempo, de tanto tempo, isso é pouco. Isso é muito pouco. Você sabe matemática? Não que você deva me amar ou coisa assim. Não que você deva tentar. Eu só espero que ame. Eu só espero que ame. Eu só espero que ame numa simplicidade de um amor juvenil desses anos que você não tem mais e que me restam nos cabelos. Eu tenho medo de te ver em outros olhos. Eu tenho medo de te ver em outros tantos olhos de fazer chorar. Você chega, ri das marcas de chocolate e as limpa com as minhas lágrimas. Está tudo bem. Está tudo bem, você diz que está tudo bem. Mas eu estou sufocando, eu estou sufocando, eu não tenho ar, você me aperta contra o peito, me abraça, me aquece e eu tento dizer, me ouça, eu tento dizer que não posso respirar, que estou ficando sem ar, que tenho medo que me deixe, que eu amo você, que eu preciso saber se é verdade, que eu te quero pra sempre, que eu estou ficando sem ar e você me abraça com mais força, me aperta, me beija, me põe no colo, no peito e eu cada vez mais pálida, mais fraca, mais frágil, sem voz, mergulhando no seu silêncio de nada dizer, de nada saber e volto sem saber como pisar.
Assinar:
Postagens (Atom)